19 Abril, 2016

Trabalho de Ana Cláudia Martins inclui entrevistas a Tozé Brito, Luxúria Canibal, Vítor Rua, Hélio Morais, entre outros

O trabalho de Ana Cláudia Martins, sob o título “Rock in Portugal: Repercussões do género musical na juventude portuguesa (1960 vs. 2014)”, foi o mote para uma reflexão acerca das influências sociológicas deste género musical na sociedade portuguesa. Menos rebeldia e mais profissionalismo são traços que a autora – que defendeu a sua dissertação no âmbito do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura da Universidade do Minho – inferiu na comparação temporal, o que tem levado os fãs contemporâneos às escolas de música e ao contacto com instrumentos musicais desde tenra idade.

À semelhança de outras formas de expressão artística, o rock deixou uma marca no mundo e nas sociedades, por isso, o fenómeno mereceu da investigadora uma análise ao rock nacional, debruçando-se na sua chegada, no seu desenvolvimento e na sua consolidação. Por outro lado, foram objeto as repercussões, transformações e inovações deixadas no país. A pesquisa pretendeu explorar a emersão desta subcultura em Portugal, bem como o lugar que ocupa. Ao longo do documento aborda-se o que mudou na juventude lusa ao nível dos seus gostos, hábitos, valores e relações desde os sixties.

A ex-aluna do Instituto de Ciências Sociais da UMinho realizou 26 entrevistas, primeiro com quem viveu o fenómeno nos anos 60 do século passado e que pertenceram ou ainda pertencem ao movimento. Falou também com outros protagonistas que tiveram alguma ligação ao rock, nomeadamente Tozé Brito (músico e produtor), Adolfo Luxúria Canibal e Miguel Pedro (ambos dos Mão Morta), Vítor Rua (GNR), Hélio Morais (Linda Martini), Nuno Calado e Álvaro Costa (radialistas), António Garcez (Roxigénio), José Castro (Petrus Castrus), Sérgio Castro (Trabalhadores do Comércio), José Serra (Aqui D’El Rock), Eduardo Morais (realizador), João Santos (produtor musical) e Victor Gomes (músico).

Em termos de conclusão, a jovem socióloga declara que há hoje um rock diferente no visual, no profissionalismo, no ideal e na atitude. O estudo realça que “a nível visual já não há correntes, casacos de couro ou cabelos compridos”. Ana Cláudia Martins sublinha que uma das características atuais mais visíveis é o uso de t-shirts relativas às bandas de eleição, bem como outros adereços numa lógica de merchandising.

Mais profissionalismo

A nível profissional, os músicos contemporâneos parecem olhar o rock como projeto de vida e recorrem às ferramentas da nova era digital. Grava-se a música não de forma amadora ou semiprofissional, mas com uma logística e técnica de topo. Já não interessa “o sexo, as drogas e o rock’n’roll” em si, o foco “está em trabalhar mais e evoluir profissionalmente”, atalha. No que diz respeito à questão da atitude, os artistas recorrem a todos os meios para ter sucesso, não estando tão dependentes de editoras. A oferta é maior, mas também o é a procura, pois “os fãs são o verdadeiro exemplo, procuram cada vez mais bandas que agradem e cumpram os seus padrões”. Apesar de tudo, o rock continua a ser, realça a socióloga, um fenómeno da juventude, “embora ligado a várias gerações que por ele passaram e que, de certa maneira, deixaram a sua marca”.

Ana Cláudia Martins sublinha ainda que os jovens têm maior poder de compra, o que permite um acesso à música que antes era mais difícil. “Têm música gratuita muitas vezes, vão aos concertos e ainda lhes sobra algum dinheiro para o merchandising”, evidencia. As culturas musicais também levam muitos a comprar instrumentos, generalizando-se as escolas físicas e virtuais para aprender a tocar. São condições que não existiam há duas décadas e tornaram-se “bons contributos” para a subcultura rock em Portugal. Na opinião da investigadora, “o que se perdeu foi a magia de lutar por lançar um disco e o entusiasmo de ele estar nos topo”.

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